
ONDE OS SHOWS ACONTECEM?
Com a pandemia da Covid-19, os shows mudaram de habitat. Forçadas a fechar as portas, as casas de shows tentaram fazer o possível para sobreviver. Aquelas que conseguiram contam os dias para retomar as atividades.
ABERTURA
“Onde os shows acontecem?” é uma grande reportagem multimídia. Nela, exploraremos o impacto da pandemia da Covid-19 no setor de shows e entretenimento ao vivo, especialmente as casas de shows do Eixo Rio-São Paulo. Uma das medidas principais para evitar o contágio da Covid-19 é o distanciamento social, entretanto os shows são sinônimos de aglomeração. Nesse contexto, as casas de shows foram as mais afetadas pela pandemia e esses eventos se dispersaram em drive-ins, lives e shows digitais. Além disso, as pessoas que trabalham com esses eventos também foram profundamente afetadas. Nos últimos anos, a situação já era crítica devido ao descaso com a cultura no Brasil.
01 BREVE PANORAMA
Os palcos são as peças centrais. A indústria do entretenimento ao vivo é ampla e engloba diversos segmentos responsáveis por manter toda a cadeia produtiva funcionando. As casas de shows são a base dessa cadeia que depende de seus palcos, na maioria das vezes, para a realização dos eventos. Entretanto, elas são as que mais sofrem com o descaso com a cultura e a falta de políticas públicas. Com a pandemia, essa situação se agravou ainda mais. “Casas de cultura e de eventos não tenho dúvida de que foram os mais impactados dentro do segmento”, afirma Rubens Amatto, idealizador da Casa de Francisca, instalada no Palacete Tereza no centro de São Paulo. “Pouco se faz pela importância dos palcos e de ter uma cena com mais palcos que possa alimentar toda essa cadeia.”
A Casa de Francisca passou por um momento muito conturbado durante a pandemia. A Casa que surgiu há pouco mais de quinze anos tem um comprometimento artístico e com a diversidade cultural e desde então se mantém de maneira independente. Em março de 2021, anunciou seu fechamento, por tempo indeterminado e sem saber se o retorno seria possível. "Mantivemos toda equipe por muitos meses e tentamos resistir para que as pessoas pudessem continuar, mas isso foi gerando ao longo do tempo um endividamento muito grande e quando essa dívida ficou insustentável tivemos que anunciar o fechamento por tempo indeterminado”, relata Rubens Amatto.
Antes da pandemia, o setor cultural sofria com descaso, sucateamento e desvalorização da cultura. “É gravíssimo, pouco inteligente e pouco estratégico”, analisa Leo Feijó, jornalista e produtor cultural com experiência na área de políticas públicas, especialmente para música. “Outros países já há muito tempo identificaram na cultura, na economia criativa em geral o potencial de crescimento com impacto econômico, social e cultural.” Ao final dos anos 2000, o Brasil começou a criar departamentos de economia criativa e de incentivo à cultura em secretarias do estado, município e no Governo Federal. “Estávamos caminhando bem até 2016 quando tudo isso foi paralisado”, avalia Leo Feijó. “Tínhamos uma expectativa de lutar por um orçamento mínimo da União de 2% do nosso orçamento, nos estados 1,5% e nos municípios 1%”, informa Leo Feijó, que também é especialista em economia criativa. “Isso nunca foi atingido e naturalmente as secretarias de cultura normalmente têm pastas com orçamento de 0,002%, é muito pequeno”.
Em 2019, com o início do mandato de Jair Bolsonaro, a cultura se tornou foco dos ataques e do aprofundamento do descaso por parte do governo federal. O Ministério da Cultura (MinC) foi extinto e diversos ataques verbais foram proferidos contra a Ancine e a Lei Rouanet, como mapeou a reportagem do Le Monde Diplomatique Brasil. Além disso, o governo promoveu cortes orçamentários, censura a projetos de cultura e trocas de gestores culturais, lembra Feijó. “Estamos vendo agora um governo que promove perseguição ao setor cultural, aos artistas e tem medo da capacidade de formulação de pensamento e discussão de ideias”, relata Leo Feijó.
“Estão paralisando a Ancine, a Lei Rouanet está com vários bloqueios, então é muito grave”
Em março de 2020, a pandemia teve início no Brasil obrigando uma paralisação geral no setor de shows. Os eventos agendados para 2020 foram adiados e cancelados conforme a pandemia continuava se propagando. As casas de shows precisaram fechar suas portas por tempo indeterminado, sem previsão de retorno e muitas fecharam definitivamente pela falta de políticas públicas e de verba para se manter. Para Rubens Amatto, idealizador da Casa de Francisca, localizada em São Paulo, “a pandemia só escancarou uma dificuldade muito grande que sempre existiu e que nesse momento ainda mais emergencial o poder público acabou não se atentando a esses espaços”.
O Circo Voador, uma das mais tradicionais casas de shows do Rio de Janeiro precisou fechar como tantas outras durante a pandemia. "O Circo Voador foi fatalmente afetado”, revela Maria Juçá, diretora da casa. Através de uma reserva de dinheiro e um patrocínio honrado mesmo com o Circo fechado foi possível manter todos os funcionários. No entanto, nem tudo foi fácil: "Atravessamos uma dificuldade muito grande, claro, algumas dívidas foram acumuladas. O que podíamos não pagar, não pagamos”, revela Maria Juçá, diretora da casa. ''Nós da parte mais criativa e do escritório ficamos cinco meses sem receber nada e ainda estamos sem receber porque o Circo ainda vai reabrir.”
Em julho de 2020, contra os desejos do governo, o Congresso aprovou a Lei Aldir Blanc destinando inicialmente para a área da cultura um auxílio emergencial de três bilhões de reais. “A Lei Aldir Blanc ajudou bastante no sentido de minimizar um pouco o impacto, mas é claro que o volume de recursos não era suficiente para isso”, observa Leo Feijó. Para espaços culturais afetados pela pandemia, a Lei previa parcelas de três a dez mil reais por mês durante três meses, com a condição de realizar de graça atividades para alunos de escolas públicas ou promover atividades em espaços públicos. “Pequenas espaços de shows e centro culturais ficaram completamente desprotegidos, o poder público não apoiou como deveria e a Lei Aldir Blanc é insuficiente para espaços culturais”, reitera Leo Feijó.

Interior da Casa de Francisca, Imagem de reprodução do Facebook. Créditos da Imagem: Pedro Napolitano

Interior do Circo Voador. Imagem de Reprodução do Site da FZ áudio. Créditos da Imagem: Fabio Zacarias
02 MUDANÇAS NO SETOR
O setor de shows passou por um momento sem precedentes. Com a paralisação, o setor sofreu mudanças provisórias, como os novos formatos, e outras definitivas, como o fechamento de casas de shows. Além disso, os profissionais se viram obrigados a parar de trabalhar por muito mais tempo do que o esperado, com isso, o setor tem presenciado uma grande taxa de desemprego. A pandemia prejudicou ainda mais um setor que já enfrentava uma crise antes mesmo da chegada do vírus no país.

97
em cada 100 empresas do setor de produção de eventos está sem trabalhar
70%
das casas de show independentes fecharam as portas
1/3
das empresas vão ter dificuldade
para reabrir
Fonte: Doreni Caramori Júnior, presidente da Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (Abrape) ao G1
03 VIDAS AFETADAS
Os setores da cultura são iguais aos corpos humanos. Um corpo é formado por microorganismos capazes de o manter funcionando. Da mesma forma, são os setores, mas os seus microrganismos são as pessoas inseridas neles. Elas são responsáveis por mantê-los ativos e vivos. Portanto, se o setor de shows foi fortemente afetado devido às mudanças provocadas pela pandemia, as pessoas que o integram foram individualmente tão afetadas quanto. Essas são duas dessas inúmeras histórias de vidas afetadas pela pandemia dentro desta área:
04 NOVOS FORMATOS
Com a pandemia, muitas casas de shows e profissionais da área do entretenimento ao vivo buscaram artifícios para sobreviver. E mesmo com a maior parte das atividades adiadas ou canceladas nesses quase dois anos de paralisação, a demanda por entretenimento não deixou de existir. Léo Feijó afirma: “essa relação com a arte, com a música, é muito importante para o bem estar e saúde mental das pessoas”. Nessa perspectiva, o setor precisou se reinventar, mesmo que temporariamente, e se adaptar a um novo cenário. Uma das soluções encontradas foi a adoção de novos formatos, em sua maioria, possibilitados pelas plataformas digitais.
As casas de show tiveram que procurar maneiras eficazes de resistir aos danos. O Circo Voador (Rio de Janeiro), fez o “Circo Voador no Ar'', projeto em que apresentações do acervo eram transmitidas no Youtube, junto com depoimentos dos produtores e dos próprios artistas sobre os shows, além das “Conversas Voadoras”, lives feitas no Instagram. A Casa de Francisca também apostou nas redes sociais e implantou as cine-lives, uma interação da música e do cinema, que também fez parte do projeto “Avante Francisca” como prêmio de agradecimento aos doadores do financiamento coletivo em prol da instituição. Os profissionais que atuam nos bastidores também tiveram que se reinventar. Para Guilherme Guedes, jornalista musical e apresentador no canal Multishow, o “Quarta Às Nove”, programa de entrevistas em formato de lives feito por ele em suas redes sociais, surgiu como uma forma de “tentar explorar outras vertentes”, mesmo numa situação caótica.
As transmissões por meio de plataformas digitais e as lives se disseminaram pelo mundo e não foi diferente no Brasil, em que atingiram números recordes com as lives mais assistidas do Youtube, segundo a Alphabet Inc. Outros formatos adotados foram os serviços de streaming, que conquistaram mais telespectadores na pandemia, e o sistema drive-in, adotado por shows e sessões de cinema ao ar livre, uma opção de experiência física, ao vivo, respeitando o distanciamento social.
Nada substitui a experiência física e social de estar rodeado de pessoas e perto do ídolo, contudo, a experiência digital ganhou um espaço no cotidiano. A possibilidade de ter acesso a todo tipo de conteúdo e a fácil disponibilização e acesso a ele, em qualquer hora e qualquer lugar, conquistou o coração das pessoas. Além disso, para as empresas, o custo de um evento online chega a ser menor do que um evento presencial, e contam com um faturamento similar. Na verdade, os especialistas já previam essa revolução digital como iminente, em que o virtual ganha mais espaço no setor do entretenimento, contudo, o futuro ainda parece nebuloso. “A gente tem que estar atento às realidades do mercado e buscar alternativas” diz Léo Feijó.
“Se essas lives ainda vão acontecer ainda? Eu acredito que sim. Mas como elas vão acontecer?” diz Aline Duda, Stage Manager e diretora técnica, sobre a permanência dos novos formatos. Profissional do ramo, Aline Duda acredita que esses formatos vieram para ficar, mas com algumas mudanças: eventos híbridos, ou seja, as transmissões não serão mais gratuitas, nem o único modo de acesso aos eventos, elas serão “parte”.
Para além dos impactos que a pandemia trouxe ao entretenimento, a indústria cultural e o comportamento do consumidor também foram atingidos. A internet já era usada pela indústria antes da crise, mas a pandemia a garantiu como meio de acesso ao conteúdo de entretenimento. Os “novos formatos” já existiam, mas a pandemia trouxe uma grande adesão a eles e, apesar dos novos formatos terem sofrido uma queda em comparação com seu ápice no começo da pandemia, de fato, eles trouxeram mudanças significativas no que tange o comportamento do público.
Imagens de reprodução do Instagram do Circo Voador
Imagens de reprodução do apoia.se da Casa de Francisca
05 RETOMADA
Os primeiros serão os últimos. Em março de 2020, o setor de shows foi o primeiro a paralisar com adiamentos e cancelamentos de eventos programados. Apesar de ter sido o primeiro a parar, está sendo o último setor a retomar suas atividades. A demora pela retomada tem diversos fatores, como as restrições impostas por estados e municípios como forma de conter a disseminação do vírus e o atraso e lentidão na campanha de vacinação no país. Com a vacinação agora mais avançada, se discute cada vez mais a retomada do setor e dos shows presenciais com público. Porém, durante esse tempo, as casas de shows tiveram que permanecer fechadas e muitas delas sofreram por conta disso. “São espaços muito fragilizados do ponto de vista econômico e é muito difícil você conseguir manter um espaço desse aberto e não é a toa que vários deles fecharam”, diz Leo Feijó.
A Casa de Francisca, sete meses após o fechamento, anunciou a reabertura. “No fundo foi um grande pedido de ajuda e a resposta foi muito grande e tivemos uma mobilização coletiva enorme tanto por parte do público quanto da classe artística e isso fez com que pudéssemos criar novas esperanças de poder retomar, que é o que está acontecendo agora”, analisa o idealizador. O Circo Voador também está retomando e tem visto uma demanda crescente por parte do público para o retorno da casa. “A experiência que estamos tendo é de abrir venda para alguns shows, tipo o do Marcelo D2 que em seis minutos vendeu duzentos ingressos”, informa Maria Juçá. “Para nós, Circo Voador, é uma coisa muito inesperada e em três dias vendemos dois mil ingressos, você observa o quanto as pessoas estão querendo isso.”
A retomada se mostra cada vez mais inevitável. Porém, esse momento é visto com certa alegria, mas também com bastante cautela e preocupação, pois devido a pandemia são necessários novos protocolos. “Estamos retomando gradualmente com muito cuidado. É um misto, estamos felizes por estar retomando, mas ainda muito preocupados com todas as adaptações que temos que fazer”, pondera Rubens Amatto. Tanto a Casa de Francisca quanto o Circo Voador estão reabrindo em Outubro de 2021.
Imagens de reprodução do Instagram da Casa de Francisca
Imagens de reprodução do Instagram do Circo Voador
A Casa de Francisca tem trabalhado com 60% da capacidade, mantendo o distanciamento entre as mesas, fazendo apenas shows sentados, uso de máscara e exigindo o passaporte de vacinação, mesmo sem uma obrigatoriedade do município e do estado de São Paulo. “Temos uma postura de não concordar com quem está negando a vacina”, afirma Rubens Amatto. Já o Circo Voador seguirá todos os protocolos oficiais determinados pela Prefeitura do Rio de Janeiro, atualmente está sendo estabelecido: operação com 50% da capacidade, uso de máscaras e exigência do passaporte de vacinação, medida obrigatória na cidade. “Sem esse passaporte não entra, tem que estar com a vacina em dia”, garante Maria Juçá. “Eu não quero que o Circo seja um ponto de radiação dessa doença maldita, o Circo vai ser sempre à favor da vida”.
Embora a retomada esteja acontecendo e seja uma realidade, ainda demorará para que as coisas voltem a ser como antes. Principalmente, para que as casas de shows recuperem sua antiga forma. “Os desafios são enormes tanto porque tivemos um estrago muito grande e então para recuperar depende de um médio e longo prazo e também da Casa voltar a ter uma frequência alta como tinha antes, mas isso só com o tempo”, relata Rubens Amatto. “Então temos que manter a calma para a Casa ir se estruturando mês a mês e podendo oferecer a experiência que sempre ofereceu de hospitalidade, comprometimento artístico e valorização do centro histórico.”
A pandemia escancarou ainda mais a importância da ciência e da tomada de decisões com base em entendimentos técnicos. Dessa forma, Chrystina Barros, integrante do Grupo Técnico Multidisciplinar para Enfrentamento da Covid-19 da UFRJ, expõe a perspectiva técnica da área da saúde sobre a retomada do setor de shows neste episódio de podcast:
06 BASTIDORES + QUEM SOMOS
A reportagem “Onde os shows acontecem?” nasceu da vontade de pesquisar mais a fundo os impactos da pandemia no setor de shows e entretenimento ao vivo. Partimos do entendimento que esse foi o setor mais afetado pela pandemia e são muitas as pessoas que dependem dele financeiramente. A cadeia produtiva da música é muito ampla e o setor de shows é apenas um segmento dentro dela, mas um que sustenta toda a cadeia. Além disso, nós dois, Lara Elis e Thiago Guimarães, somos movidos pela cultura e não poderíamos tratar sobre um assunto diferente. Ainda mais em um momento tão difícil como este que o setor cultural atravessa, não só pela pandemia, mas também pelo desmonte e desvalorização da cultura.
Nós compreendemos que a cultura é essencial e tem uma grande importância, apesar de ser considerada sempre como algo menor e menos importante. Através dessa reportagem, queremos mostrar todo o valor que a cultura tem, inclusive jornalisticamente. Nesse processo, enfrentamos um dos maiores desafios do momento: conseguir fazer uma grande reportagem multimídia em meio à pandemia que acaba nos limitando. Entretanto, utilizamos a nosso favor a tecnologia que está a nossa disposição.
A distância foi um grande fator presente durante a realização da reportagem. Nós estávamos, Lara e Thiago, distantes um do outro, não podendo estar juntos como naturalmente seria fazer um trabalho em dupla. Passamos várias horas nos comunicando por telas, seja pelo celular em troca de mensagens ou por chamadas de vídeo. A distância também se deu entre nós e os nossos entrevistados, apesar disso a conexão da conversa no ato de entrevistar foi instantânea. Portanto, a distância, no fim, não foi um impedimento para a concretização da reportagem.
Dedicamos essa reportagem a todas as casas de shows que passaram por dificuldades durante a pandemia, principalmente aquelas que não conseguiram sobreviver à ela. Dedicamos também a todos os profissionais que integram o setor cultural e a indústria de shows que tiveram suas vidas afetadas de forma profunda. Por fim, esperamos que muito em breve seja possível nos aglomerarmos com segurança novamente e que o setor de shows e todas as pessoas que o integram consigam se recuperar desse momento avassalador.















